A luta para salvar cidade canadense ameaçada pelas tarifas de Trump
A fábrica de papel tem servido como motor econômico de Témiscaming por mais de um século BBC Ao atravessar o rio Ottawa em direção a Témiscaming, Quebec,...
A fábrica de papel tem servido como motor econômico de Témiscaming por mais de um século BBC Ao atravessar o rio Ottawa em direção a Témiscaming, Quebec, a fábrica de papel ocupa grande parte da paisagem. A própria cidade foi construída há mais de um século, em torno do moinho e das florestas da região, repletas de pinheiros, bétulas, abetos e pinheiros-do-oregon. Agora, o principal empregador e pilar econômico está parado após o fracasso das negociações comerciais entre o Canadá e os EUA e a imposição de mais tarifas ao país pelo presidente Donald Trump. A maioria dos 360 funcionários da fábrica está desempregada e, por enquanto, consegue se manter com o pagamento parcial garantido pelo programa de alívio tarifário do governo. Para alguns, como Nadine Suley, o fechamento da fábrica pode significar não apenas a perda do sustento, mas também de todo um modo de vida. Ela não é "uma garota da cidade" e, assim como muitos moradores, pretende sair para caçar alces mais tarde, aproveitando a curta temporada de caça. Em tom de brincadeira, diz que todos vão precisar da carne gratuita que os animais fornecerão neste ano. "Não é apenas um emprego. É a nossa casa", diz Suley. Ela acrescenta que as tarifas impostas pelos Estados Unidos à cidade parecem "um ataque pessoal". No início de outubro, a proprietária americana da fábrica, a RYAM, decidiu mantê-la em uma "paralisação por razões econômicas" por tempo indeterminado. O valor dos imóveis em Témiscaming despencou praticamente da noite para o dia. Placas de "Vende-se" agora se espalham pelos jardins das casas modestas de classe média que predominam na cidade. Há o temor de que até mesmo profissionais de serviços essenciais — de funcionários de supermercados a médicos dos pequenos hospitais locais — também deixem a cidade. "Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma", diz Ronnie Raymond, que, assim como muitos moradores, vem de uma família de trabalhadores da fábrica. "Não vai sobrar nada, absolutamente nada. Na verdade, não haverá trabalho para ninguém. É assustador." Em linhas gerais, a economia canadense resistiu à guerra comercial em curso com os EUA, seu maior cliente. A taxa de desemprego nacional permaneceu praticamente estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas de Trump. Isso ocorreu em paralelo a um crescimento econômico moderado, porém consistente. Mas uma análise mais detalhada dos números revela focos de grande dificuldade em setores diretamente afetados pelas tarifas americanas de até 50%, como aço, alumínio, automóveis e — no caso da Témiscaming — madeira, celulose e papel. Isso levanta questionamentos sobre se o governo Carney está fazendo o suficiente para ajudar aqueles que enfrentam dificuldades enquanto um acordo comercial permanece indefinido. "Se houvesse uma perda de 10% dos empregos em Toronto, Montreal, Quebec ou Vancouver, isso estaria em todos os noticiários e pressionaria muito os governos a tomarem alguma providência", diz Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical, cujo pai e avô também trabalharam na fábrica. A crise econômica pode provocar efeitos em cadeia em todo o setor florestal da região, afetando também serrarias e empresas de transporte rodoviário. Um empreiteiro local disse à BBC que já precisou demitir 13 funcionários. A última vez que a cidade enfrentou uma ameaça tão grave à sua própria sobrevivência foi em 1973, quando o então proprietário americano da fábrica ameaçou fechá-la. A ameaça levou trabalhadores e gestores locais a se unirem para comprar a empresa. Eles a transformaram na Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense, com unidades na América do Norte e na França. Agora, os trabalhadores esperam repetir o feito e estão mobilizando uma coalizão de moradores interessados em recomprar a fábrica da RYAM, que a adquiriu em 2017. "Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar", diz Lefebvre, em conversa na sede do sindicato da cidade. Mas ele argumenta que isso só será possível com uma ajuda significativa do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec, seja por meio de medidas de alívio tarifário ou de apoio financeiro. Suley observa que, desde que foi eleito, o primeiro-ministro tem enfatizado a importância de "comprar produtos locais" e apoiar os trabalhadores canadenses. Para ela, apoiar a iniciativa dos moradores de recomprar a fábrica seria uma forma de Carney cumprir essa promessa. Em um e-mail enviado à BBC, a RYAM afirmou que não comentaria a possibilidade de venda da fábrica nem a existência de eventuais compradores. Stéphane Lefebvre, seu pai e seu avô trabalharam na fábrica de papel em Témiscaming BBC O prefeito Alain Gauthier não culpa a RYAM pela decisão. Ele descreve as tarifas americanas como "uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá". Ele quer que o governo federal, em Ottawa, responda com suas próprias tarifas sobre produtos de papelão importados dos Estados Unidos, que atualmente entram no Canadá sem cobrança de tarifas. Gauthier afirma que, embora os políticos digam que o Canadá está em uma guerra econômica com os Estados Unidos, "na realidade, não vemos absolutamente nenhuma evidência de que medidas de guerra estejam sendo tomadas". "Sentimos que entramos em uma guerra armados com pistolinhas de água de criança para revidar." Alguns moradores, como Lefebvre, acreditam que o setor florestal ficou em segundo plano nos esforços para salvar outras indústrias afetadas pelas tarifas, como as siderúrgicas e automobilísticas. Neste mês, a ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou impor sanções financeiras à Stelco — uma das maiores siderúrgicas do Canadá — ou forçar a venda de seus ativos caso a empresa levasse adiante os planos de demitir cerca de 500 funcionários em razão da pressão das tarifas sobre o aço. A Stelco, localizada em Hamilton, perto de Toronto, pertence à americana Cleveland-Cliffs, que se comprometeu a manter os empregos no Canadá quando comprou a empresa, em 2024. Na semana passada, Carney e o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, anunciaram um pacote de investimentos de quase C$ 9 bilhões (US$ 6,4 bilhões; £ 4,8 bilhões) para apoiar os setores siderúrgico e automobilístico da província. Segundo eles, os recursos serão usados para modernizar as indústrias, fortalecer a demanda interna e abrir novos mercados no exterior. Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois eleito por Témiscaming, disse à BBC estar "muito preocupado e apreensivo" com o que considera uma falta de ação do governo Carney para apoiar a cidade e o setor florestal de Quebec de maneira mais ampla. Em nota enviada à BBC, um porta-voz da ministra Joly afirmou que o governo disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas. O governo também lançou um programa para ajudar empresas afetadas pelas tarifas a obter capital de giro enquanto trabalham para reduzir sua dependência dos mercados americanos. Sobre a fábrica de Témiscaming, o porta-voz afirmou que o governo "está trabalhando ativamente com todas as partes envolvidas para encontrar uma solução viável para os desafios enfrentados pela empresa, ao mesmo tempo que administra de forma responsável o dinheiro dos canadenses". Moradores de Témiscaming se reuniram em um comício liderado pelo sindicato para apoiar os trabalhadores da serraria e chamar a atenção para os problemas da indústria madeireira BBC Em agosto, após o fracasso das negociações comerciais, os Estados Unidos impuseram tarifas de 50% sobre cerca de C$ 28 bilhões (aproximadamente R$ 112 bilhões) em produtos canadenses, incluindo produtos de madeira e papel, como celulose, artigos de papelaria e caixas. Em resposta, o Canadá impôs suas próprias tarifas retaliatórias, na mesma proporção, "dólar por dólar". A fábrica de Témiscaming, que produz papelão usado em embalagens de alimentos congelados na América do Norte e em bilhetes de loteria instantânea, comuns em lojas de conveniência, envia cerca de 75% de sua produção para os Estados Unidos. Trump argumenta que essas tarifas de importação impulsionam a indústria manufatureira americana e geram empregos — em essência, uma tentativa de proteger trabalhadores dos Estados Unidos que poderiam enfrentar um destino semelhante ao dos funcionários de Témiscaming. Frank Dottori já passou por tudo isso antes. Hoje aposentado em Témiscaming, aos mais de 80 anos, ele era engenheiro na fábrica e teve papel fundamental na mobilização dos funcionários, na década de 1970, para que aceitassem um corte salarial de 10% e comprassem a empresa coletivamente. Mais tarde, tornou-se diretor-executivo. Na época, suas ambições foram consideradas absurdas. Ele se lembra de ter sido "educadamente colocado para fora" pelo então primeiro-ministro de Quebec quando foi pedir apoio pela primeira vez. Mas o grupo conseguiu levar o plano adiante, com a ajuda do sindicato e de um ex-funcionário com experiência em gestão e muita autoconfiança. Dottori atribui o sucesso ao forte carisma desse homem Dottori afirma que a nova geração de trabalhadores precisa de alguém tão ousado quanto ele. "O grupo local tem alguém assim? É muito improvável. Eles podem conseguir? Sim, se se organizarem", disse. Segundo ele, também é fundamental que as tarifas americanas sejam suspensas para que a fábrica volte a ser economicamente viável no longo prazo, ao menos em um primeiro momento. Frank Dottori liderou o esforço para comprar a fábrica de Témiscaming na década de 1970, durante um período de dificuldades econômicas. BBC Muitos trabalhadores de Témiscaming dizem depositar esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Eles esperam que o resultado aumente a pressão sobre Trump — cujos índices de aprovação vêm caindo, segundo pesquisas — para que reduza algumas das tarifas impostas ao Canadá. "Aceitaremos qualquer ajuda que pudermos receber", diz Suley. Ela acrescenta: "Há americanos que se importam com o que está acontecendo, e isso também os está afetando". Há sinais de que o governo Trump está levando essa pressão em consideração. Na semana passada, algumas tarifas sobre produtos canadenses foram suspensas após uma articulação da senadora republicana pelo Maine, Susan Collins, que concorre à reeleição em novembro. As mudanças, no entanto, não contemplam os produtos fabricados na unidade de Témiscaming. Suley e outros trabalhadores esperam que uma solução seja encontrada rapidamente, antes da chegada do inverno, quando as temperaturas abaixo de zero podem congelar os equipamentos da fábrica paralisada e provocar danos que tornariam ainda mais difícil sua reabertura. Enquanto isso, Lefebvre diz estar determinado a realizar o sonho de fazer com que a fábrica volte a pertencer aos moradores, independentemente do que aconteça. "Estamos no jogo 7 agora", diz ele. "Vamos jogar até o apito final". Canadá anuncia tarifas sobre 700 produtos americanos em retaliação ao tarifaço de Trump